Comecei a usar computadores ainda nos anos 1980 no laboratório de informática da escola. Era um sistema Apple II DOS. Mais tarde, na escola e no primeiro emprego – ainda adolescente (cerca de 14/15 anos) -, comecei a ter experiências também com o TRSDOS, o MS-DOS, o Commodore DOS e o AmigaOS. Também tive uma experiência breve com o BeOS, e mais prolongado com o MacOS por conta da produção multimídia. Minha limitada experiência com o MS Windows se deu também na escola ou no trabalho, em fins da década de 1990 e início dos anos 2000. Contudo, tenho sido um usuário diário de sistemas baseados no GNU/Linux desde, pelo menos, 1995; e de sistemas baseados no BSD desde 1999.
Tudo o que aprendi sobre computadores, programação e administração de sistemas está ligado à minha experiência com os sistemas baseados em GNU/Linux e *BSD. Minha compreensão filosófica acerca da interação humana com os computadores e com a tecnologia digital em geral foi moldada por essa experiência prolongada com essas plataformas operacionais. Assim como minha compreensão política foi enriquecida a partir dessa experiência. Nem sempre foi possível fazer tudo o que precisava nesses sistemas, especificamente quando se tratava da produção multimídia, mas meus computadores pessoais – ao longo das últimas três décadas (ou seja, todos os meus sistemas pessoais, até hoje) – têm sido sistemas GNU/Linux para atividades gerais (ou *BSD para atividades específicas).
Meu envolvimento com sistemas baseados em GNU/Linux e *BSD tem uma raíz não apenas tecnológica, mas também profundamente filosófica. As comunidades que se formaram ao redor dos projetos de Software Livre – e, devo enfatizar, as comunidades e não as empresas -, apesar de um tanto confusas para quem olha de fora, talvez representem a manifestação mais concreta de certas ideias filosóficas sobre liberdade, propriedade e governança comunitária. Essas empreitadas político-tecnológicas incorporam visões que vão do anarquismo ao comunismo, do liberalismo clássico ao libertarianismo, do idealismo utópico ao mais explícito utilitarismo capitalista. E essa é a beleza (filosófica) de todas elas.
Os movimentos do Software Livre, do Open Source, do GNU/Linux, dos *BSDs, e de todas as demais empreitadas semelhantes refletem, no mundo tecnológico, toda a diversidade e, consequentemente, todas as contradições de nosso mundo humano, “demasiadamente humano”. Essas contradições abarcam não apenas aquelas citadas ideias filosóficas sobre liberdade, propriedade e governança comunitária, mas também materializam o grande muro socioeconômico-tecnológico da divisão digital de nossa era. Minha esperança (utópica?) é que esses movimentos do mundo tecnológico possam contribuir para, se não derrubar, pelo menos diminuir as barreiras – os muros sociais – que separam tecnologicamente os indivíduos e as sociedades, marcando vantangens e desvantagens socioeconômicas em nosso mundo.
Gibson