Gibson da Costa – Economista (ecológico) filiado ao CORECON-AM
A Economia, em sua definição clássica e de manuais, é o estudo da alocação de recursos escassos entre fins alternativos e competitivos (DALEY, FARLEY, 2011, p. 3). Ela analisa como os seres humanos satisfazem suas necessidades e desejos por meio da produção e consumo de bens e serviços (COMMON, STAGL, 2005, p. 1). Tradicionalmente, a disciplina foca no mecanismo de mercado para essa alocação, operando sob a premissa de que os desejos humanos são insaciáveis e que o bem-estar aumenta com a maior provisão de mercadorias (MONT, 2002).
A Economia Ecológica, por sua vez, é um campo transdisciplinar que estuda as inter-relações entre os sistemas econômicos e os ecossistemas (SHMELEV, 2012). Ela se define pela união da ecologia (estudo da “casa” ou natureza) e da economia (gestão da “casa”), focando na gestão da “casa da humanidade” dentro da “casa da natureza”. Seu ponto de partida fundamental é a visão de que a economia é um subsistema aberto de um ecossistema global maior, finito e não crescente (DALEY, FARLEY, 2011, p. 15).
As principais diferenças entre a Economia Ecológica e a Economia Neoclássica tradicional podem ser resumidas nos seguintes pontos:
1. Visão Pré-Analítica e a Relação com o Mundo
-
Neoclássica: Enxerga a economia como o todo. A natureza e o meio ambiente são vistos apenas como setores ou subsistemas do sistema econômico (como os setores de mineração ou pesca) (DALEY, FARLEY, 2011, p. 15).
-
Ecológica: Enxerga a economia como parte do ecossistema. O sistema econômico depende totalmente do ecossistema circundante para obter recursos (fontes) e para a absorção de resíduos (sumidouros) (DALEY, FARLEY, 2011, p. 17).
2. Escassez e Substitutabilidade
-
Neoclássica: Considera a escassez como algo relativo. Acredita que o progresso tecnológico e o mecanismo de preços permitem a substituição infinita de recursos naturais por capital construído pelo homem.
-
Ecológica: Enfatiza a escassez absoluta de energia e matéria. Argumenta que o capital natural e o capital humano são, em grande medida, complementares, e não substitutos; a falta de recursos naturais torna-se, portanto, um fator limitante ao crescimento.
3. Leis da Física e Entropia
-
Neoclássica: Baseia-se em uma metáfora mecânica, similar à física do século XIX, vendo a economia como um fluxo circular de valor que pode se reproduzir indefinidamente, quase como uma máquina de movimento perpétuo (AYRES, NAIR, 1984).
-
Ecológica: Baseia-se nas Leis da Termodinâmica, especialmente na Lei da Entropia. Reconhece que o processo econômico é uma transformação unidirecional e irreversível de matéria e energia de baixa entropia (recursos úteis) em resíduos de alta entropia.
4. Prioridades de Gestão (Escala, Distribuição e Alocação)
-
Neoclássica: Foca quase exclusivamente na alocação eficiente (eficiência de mercado) como o objetivo principal.
-
Ecológica: Estabelece uma hierarquia de prioridades: primeiro a escala sustentável (o tamanho físico da economia em relação ao ecossistema), segundo a distribuição justa (equidade entre pessoas e gerações) e, por fim, a alocação eficiente.
5. Crescimento versus Desenvolvimento
-
Neoclássica: Busca o crescimento econômico perpétuo, medido pelo aumento quantitativo do PIB, como a solução para problemas de pobreza e desemprego.
-
Ecológica: Distingue entre crescimento (aumento quantitativo do fluxo de matéria e energia) e desenvolvimento (melhoria qualitativa do bem-estar). Argumenta que o crescimento físico contínuo em um planeta finito é impossível e eventualmente torna-se crescimento antieconômico, onde os custos marginais superam os benefícios.
6. Valores e Bem-Estar
-
Neoclássica: É monística e utilitarista, reduzindo o valor às preferências individuais reveladas pelo mercado e pela soberania do consumidor.
-
Ecológica: Aceita o pluralismo de valores e a sua incomensurabilidade (a ideia de que nem tudo pode ou deve ser reduzido a um único valor monetário), priorizando a saúde do sistema e a sustentabilidade a longo prazo sobre o consumo imediato.
Referências:
COMMON, Mick; STAGL, Sigrid. Ecological Economics: An Introduction. Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press, 2005.
DALEY, Herman E.; FARLEY, Joshua. Ecological Economics: Principles and Applications. 2.ed. Washington, EUA: Island Press, 2011.
AYRES, Robert U.; NAIR, Indira. Thermodynamics and Economics. In: Physics Today, nov. 1984, v. 37, n.11, p. 62-71. Disponível em: <https://doi.org/10.1063/1.2915973>. Acesso em: 4 dez. 2024.
MONT, Oksana. Consumption and Ecological Economics: Towards Sustainability. In: PERTSOVA, Carolyn C. (Ed.). Ecological Economics Research Trends. Nova York: Nova Science Publishers, 2007.
SHMELEV, Stanislav. Ecological Economics: Sustainability in Practice. Londres: Springer, 2012.