Economia Política Internacional

Gibson Da Costa – Economista (CORECON-AM), Geógrafo (CREA-RR)

A Economia Política Internacional (EPI) – frequentemente conhecida pela sigla em inglês IPE (International Political Economy) – é o campo de estudo interdisciplinar dedicado a investigar a intersecção, as tensões e a interdependência dinâmica entre a autoridade política (Estados, governos, regimes e instituições) e as forças de mercado (produção, comércio, finanças e corporações transnacionais) em escala global.

Enquanto a ciência econômica convencional tende a tratar o mercado internacional como uma esfera pura de trocas abstratas, e as relações internacionais tradicionais focaram por muito tempo no Estado e na segurança militar, a EPI analisa como as decisões políticas moldam as estruturas do mercado global e como a integração econômica internacional afeta os interesses, políticas e instituições domésticas dos países.

Como sintetizou Susan Strange, a EPI investiga os arranjos sociais, políticos e econômicos que afetam os sistemas mundiais de produção, troca e distribuição, bem como a combinação de valores fundamentais — como riqueza, segurança, liberdade e justiça — refletidos nesses arranjos.

Origem da Economia Política Internacional

A EPI emergiu como um campo estruturado de pesquisa entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970. Essa emergência foi impulsionada por transformações marcantes no sistema internacional:

  • Aumento da Interdependência Econômica: O sucesso do arranjo do pós-guerra de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e GATT) promoveu uma rápida expansão do comércio e dos fluxos de capital internacional. Conceitos como a “interdependência complexa” colocaram em cheque a ideia de que o Estado-nação operava de forma isolada.

  • Crise do Sistema de Bretton Woods e Choques do Petróleo: A suspensão da conversibilidade do dólar em ouro pelos EUA em 1971 e o choque do petróleo promovido pela OPEP em 1973/1974 demonstraram que o mercado internacional não era um ambiente neutro ou autônomo, mas profundamente politizado e vulnerável a disputas de poder.

  • Percepção do Declínio Relativo da Hegemonia Norte-Americana: O surgimento de conflitos comerciais e o aumento de barreiras não tarifárias geraram questionamentos sobre como a estabilidade da economia mundial dependia da liderança de uma única potência hegemônica.

Pioneiros como Susan Strange, Robert Gilpin, Robert Keohane, Joseph Nye, Charles Kindleberger e Richard Cooper no Norte global, somados às formulações de Raúl Prebisch, Celso Furtado, Immanuel Wallerstein e dos teóricos da dependência no Sul global, resgataram a tradição da economia política clássica para compreender a nova realidade da globalização nascente.

Principais Perspectivas Teóricas

A EPI é caracterizada pela convivência e debate entre diferentes tradições teóricas:

1. Mercantilismo / Realismo Econômico e Teoria da Estabilidade Hegemônica (TEH)

Foco e Premissas: Considera o sistema internacional anárquico e competitivo. O Estado é o ator central e busca maximizar seu poder e segurança nacional por meio da economia. A atividade econômica é vista como um instrumento de poder do Estado.

Teoria da Estabilidade Hegemônica: Defendida por autores como Charles Kindleberger e Robert Gilpin, argumenta que a existência de uma economia internacional aberta, liberal e estável exige a presença de uma potência hegemônica disposta a fornecer bens públicos globais e impor as regras do jogo.

2. Liberalismo / Neoliberalismo Institucional e Open Economy Politics (OEP)

Foco e Premissas: Assume os pressupostos da economia neoclássica e da teoria do comércio, enfatizando os ganhos de bem-estar proporcionados pelo livre comércio e pela cooperação internacional.

Instituições e Regimes Globais: Autores como Robert Keohane mostram que regimes e instituições internacionais (como FMI e OMC) reduzem custos de transação e incertezas, permitindo que os Estados cooperem mesmo na ausência ou declínio de uma hegemonia.

Open Economy Politics (OEP): Abordagem dominante a partir dos anos 1990, deduz os interesses dos atores (firmas, setores, fatores de produção) a partir de sua posição no comércio internacional (modelos Heckscher-Ohlin ou Ricardo-Viner), analisa como esses interesses são agregados pelas instituições políticas domésticas e como se desdobram nas negociações internacionais.

3. Estruturalismo, Marxismo e Teoria do Sistema-Mundo / Dependência

Foco e Premissas: Concentra-se nos conflitos de classe, no desenvolvimento desigual, nas assimetrias de poder e na exploração dentro da economia capitalista global.

Teoria da Dependência: Desenvolvida por pensadores latino-americanos (como Raúl Prebisch, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto), aponta que os países da periferia são subdesenvolvidos devido à sua inserção desfavorável na divisão internacional do trabalho e à troca desigual com o centro.

Teoria do Sistema-Mundo e Ciclos de Acumulação: Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi analisam o capitalismo como um sistema-mundo moderno composto por centro, semiperiferia e periferia articulados por um sistema interestatal, no qual a aliança entre capital e Estado gera ciclos sistêmicos de acumulação e hegemonias globais.

4. Abordagem do Poder Estrutural (Susan Strange)

Foco e Premissas: Rejeita os modelos estreitos centrados exclusivamente no Estado ou na eficiência do mercado.

As Quatro Estruturas do Poder: Susan Strange propõe que o poder na EPI não se resume ao poder relacional (forçar outro a fazer algo), mas ao poder estrutural de moldar as regras do jogo global em quatro dimensões fundamentais: segurança, produção, finanças e conhecimento.

Fontes Bibliográficas

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WALLERSTEIN, Immanuel. The Modern World-System I: capitalist agriculture and the origins of the European world-economy in the sixteenth century. Nova York: Academic Press, 1974.

Gibson Da Costa