Teoria do Poder Estrutural de Susan Strange

Gibson Da Costa – Economista (CORECON-AM), Geógrafo (CREA-RR)

A Teoria das Quatro Estruturas de Susan Strange (1923–1998) representa uma das contribuições mais influentes e inovadoras para a Economia Política Internacional (EPI). Formulada precipuamente em sua obra clássica States and Markets (1988), a teoria rompe com as abordagens tradicionais das Relações Internacionais e da Ciência Econômica ao introduzir o conceito central de Poder Estrutural.

1. Poder Relacional vs. Poder Estrutural

Para compreender a teoria das quatro estruturas, é necessário entender a distinção fundamental feita por Strange entre dois tipos de poder:

  • Poder Relacional: É a capacidade tradicional de um ator (seja um Estado ou indivíduo) de forçar outro ator a fazer algo que ele não faria de outra forma.

  • Poder Estrutural: É o poder de moldar e determinar as estruturas globais dentro das quais os Estados, suas instituições políticas, suas empresas econômicas e seus cidadãos têm que operar.

O poder estrutural confere a capacidade de decidir como as coisas serão feitas, como os mercados serão organizados, como os riscos serão geridos e como os benefícios da atividade global serão distribuídos.

2. As Quatro Estruturas Primárias do Poder Estrutural

Strange argumenta que o poder na economia política global não se resume à força militar isolada ou ao comércio, mas emana de quatro estruturas primárias interligadas:

A. Estrutura de Segurança

  • Definição: É o arranjo pelo qual a proteção contra ameaças físicas e a violência é oferecida, garantida ou negada aos atores no sistema.

  • Mecanismo: Aquele que detém o controle da segurança não apenas garante sua própria sobrevivência, mas adquire o poder de ditar condições e termos de proteção a outros Estados e empresas.

  • Impacto Econômico: A estabilidade e os fluxos globais de comércio e capital dependem diretamente de quem provê a ordem e a segurança internacional (como a garantia das rotas marítimas globais).

B. Estrutura de Produção

  • Definição: Refere-se à estrutura que determina o que é produzido, por quem, para quem, sob quais condições e em quais termos.

  • Transformação Global: A produção deixou de ser organizada em escala puramente nacional para se tornar uma estrutura de produção globalizada, dominada por Corporações Transnacionais (TNCs).

  • Mecanismo: Quem controla o modo de produção e os canais globais de suprimento controla a criação de riqueza, a alocação do trabalho e a transferência de tecnologia internacional.

C. Estrutura Financeira

  • Definição: Refere-se ao sistema de criação, alocação e gestão do crédito e da moeda na economia mundial.

  • Importância: O crédito é a “linfa vital” do capitalismo contemporâneo; permite gastar hoje e pagar amanhã, financiando investimentos produtivos e o consumo.

  • Mecanismo: O poder financeiro pertence àqueles que controlam a oferta monetária de moedas de reserva internacional (como o dólar norte-americano), o sistema bancário global e os mercados financeiros (como o mercado de Eurodólares). Quem controla o crédito decide quais economias crescem e quais enfrentam restrições de liquidez.

D. Estrutura de Conhecimento

  • Definição: É a estrutura mais negligenciada e subestimada, mas extremamente poderosa. Refere-se ao controle sobre o que se acredita (ideologias e valores), o que se sabe (ciência e tecnologia) e os canais de comunicação.

  • Mecanismo: O poder no conhecimento reside tanto na capacidade de criar e aplicar tecnologias de ponta quanto na capacidade negativa de excluir os outros do acesso ao saber e restringir a informação. Além disso, envolve impor os “discursos” e conceitos dominantes (como as normas éticas e institucionais aceitas no comércio global).

3. A Interconexão das Estruturas e a Alocação de Valores

Strange destaca que essas quatro estruturas não operam isoladamente, mas sim de forma interligada. Mudanças na estrutura de conhecimento (como inovações tecnológicas) alteram a produção e as finanças; alterações na segurança afetam a alocação de capitais e os mercados financeiros.

A combinação dessas quatro estruturas determina a distribuição de quatro valores fundamentais da Economia Política Internacional:

  1. Riqueza.

  2. Segurança.

  3. Liberdade.

  4. Justiça.

Além disso, abaixo das quatro estruturas primárias, situam-se as estruturas secundárias (como o comércio internacional, os transportes, a energia e a assistência social), que são fortemente condicionadas e moldadas pela dinâmica das quatro primárias.

4. Aplicação Teórica: A Hegemonia Estrutural dos EUA

A teoria das quatro estruturas foi fundamental para desmistificar a tese do “declínio da hegemonia norte-americana” nos anos 1980. Enquanto analistas focados no comércio viam o declínio dos EUA devido à perda de participação relativa nas exportações globais, Strange demonstrou que o poder estrutural dos Estados Unidos permaneceu dominante nas quatro dimensões:

  • Manutenção da liderança na segurança mundial.

  • Domínio das maiores empresas transnacionais de produção.

  • Controle do sistema monetário via dólar e mercados de crédito.

  • Liderança na inovação tecnológica, universidades e canais de informação.

Fontes Bibliográficas

GILPIN, Robert. The Political Economy of International Relations. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1987.

KEOHANE, Robert O. After Hegemony: cooperation and discord in the world political economy. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1984.

PAULA, Ricardo Zimbrão Affonso de. Capitalismo: definições (Livro 1). São Luís: EDUFMA, 2020.

STRANGE, Susan. States and Markets. Londres: Pinter Publishers, 1988.

WEINGAST, Barry R.; WITTMAN, Donald A. (Ed.). The Oxford handbook of political economy. Oxford: Oxford University Press, 2006.

Gibson Da Costa