Gibson Da Costa
O Arya Samaj (“Sociedade dos Nobres”) é um dos movimentos de reforma e revitalização religiosa mais influentes do Hinduísmo moderno, fundado em Bombaim (atual Mumbai) em 1875 pelo Swami Dayananda Saraswati (1824–1883) (FLOOD, 1996; KLOSTERMAIER, 2007). Dayananda era um brâmane gujarate e asceta (sannyasin) que concluiu que a religião viva de seu tempo havia se afastado de suas origens puras devido a acréscimos e superstições medievais (FLOOD, 1996; LIPNER, 1994).
1. Princípios Fundamentais e Teologia
“De Volta aos Vedas”: O pilar do Arya Samaj é o lema de retorno aos Vedas, considerados a única revelação divina infalível, perfeita e a fonte de todo o conhecimento universal e científico (FLOOD, 1996; WANGU, 2009). Dayananda rejeitou a autoridade de textos posteriores, como os Puranas e os Épicos, por considerá-los responsáveis pela corrupção da tradição védica original (FLOOD, 1996; KLOSTERMAIER, 2007).
Monoteísmo Estrito: O movimento prega a adoração a um Deus único, incorpóreo, onipresente e sem forma (Ishvara), rejeitando o politeísmo e a doutrina de que Deus assume formas humanas (avataras) (KLOSTERMAIER, 2007; LIPNER, 1994).
Rejeição da Idolatria: Dayananda opôs-se veementemente ao culto a imagens (murti-puja) em templos (FLOOD, 1996; KLOSTERMAIER, 2007).
O Ritual do Fogo (Havan / Homa): Em substituição às oferendas diante de estátuas, o Arya Samaj restabeleceu o ritual védico do fogo (agnihotra ou havan) como a forma central e legítima de ato de culto (FLOOD, 1996; BAKKER, 2024).
2. Reformas Sociais e Igualdade
Reestruturação do Sistema de Castas: O Arya Samaj combateu a hereditariedade do sistema de castas, defendendo que a classe (varna) de um indivíduo deve ser determinada pelo seu mérito, caráter e conduta, e não pelo seu nascimento (KLOSTERMAIER, 2007).
Direitos das Mulheres e Democratização do Saber: O movimento promoveu o direito universal de acesso e leitura dos Vedas a todas as pessoas, incluindo mulheres e membros de castas baixas (shudras), que tradicionalmente eram proibidos de os ouvir (FLOOD, 1996; WANGU, 2009). Defendeu também a instrução feminina, a abolição do casamento infantil e a permissão para o recasamento de viúvas (FLOOD, 1996; WANGU, 2009).
3. A Cerimônia de Shuddhi e o Nacionalismo
Reconversão (Shuddhi): Como reação ao proselitismo cristão e islâmico na Índia colonial, o Arya Samaj instituiu o ritual de shuddhi (“purificação”) (FLOOD, 1996; KLOSTERMAIER, 2007). Este rito era utilizado para reintegrar ao Hinduísmo pessoas convertidas a outras religiões e para elevar o status ritual de populações marginalizadas (FLOOD, 1996; LIPNER, 1994).
Educação e Política: O movimento criou duas vertentes educacionais de grande relevância: as escolas e faculdades D.A.V. (Dayananda Anglo-Vedic), que combinavam o currículo científico ocidental com valores védicos, e os Gurukulas, voltados para o ensino tradicional em sânscrito (FLOOD, 1996; KLOSTERMAIER, 2007). Suas ideias exerceram forte influência no surgimento do nacionalismo hindu moderno (FLOOD, 1996; LIPNER, 1994).
4. Impacto na Diáspora (Caribe)
Na diáspora indiana (Guiana, Trinidad e Suriname), missionários do Arya Samaj chegaram nas primeiras décadas do século XX (VAN DER VEER; VERTOVEC, 1991; VERTOVEC, 1994). A pregação anti-idolatria do Samaj provocou intensos debates rituais, compelindo a maioria ortodoxa (Sanatanistas) a se organizar institucionalmente em conselhos e associações centrais para defender e padronizar suas práticas (VAN DER VEER; VERTOVEC, 1991; VERTOVEC, 1994).
Fontes Bibliográficas
BAKKER, Freek L. Hinduism. In: Oxford Research Encyclopedia of Religion. Oxford: Oxford University Press, 2024.
FLOOD, Gavin. An introduction to Hinduism. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
KLOSTERMAIER, Klaus K. A survey of Hinduism. 3. ed. Albany, EUA: State University of New York Press, 2007.
LIPNER, Julius. Hindus: their religious beliefs and practices. Londres: Routledge, 1994.
RAMPERSAD, Indrani. Hinduism in the Caribbean. In: KUMAR, P. Pratap (ed.). Contemporary Hinduism: ritual, culture, and practice. Londres: Routledge, 2014. p. 57-66.
ROSEN, Steven J. Essential Hinduism. Westport, EUA: Praeger, 2006.
RUIZ CALDERÓN, Javier. Breve historia del hinduismo: de los vedas al siglo XXI. Madri: Biblioteca Nueva, 2006.
VAN DER VEER, Peter; VERTOVEC, Steven. Brahmanism abroad: on Caribbean Hinduism as an ethnic religion. Ethnology, Pittsburgh, v. 30, n. 2, p. 149-166, Apr. 1991.
VERTOVEC, Steven. ‘Official’ and ‘popular’ Hinduism in diaspora: historical and contemporary trends in Surinam, Trinidad and Guyana. Contributions to Indian Sociology, New Delhi, v. 28, n. 1, p. 123-147, 1994.
WANGU, Madhu Bazaz. Hinduism. New York: Infobase Publishing, 2009.
YOUNGER, Paul. Trinidad Hinduism. In: KUMAR, P. Pratap (ed.). Contemporary Hinduism: ritual, culture, and practice. London: Routledge, 2014. p. 45-56.